TRADUÇÃO: Camila para a Telegraph

31 ago 2019

Em uma tarde em março de 2012, Simon Cowell tirou um tempo para fumar nos bastidores do Greensboro Coliseum na Carolina do Norte, onde ele estava julgando as audições para o X Factor americano, quando encontrou uma garoto deitada no chão, soluçando.

A garota era Camila Cabello. Ela tinha acabado de fazer 15 anos, e para seu aniversário pediu a seus pais – imigrantes cubanos vivendo em Miami, que se sustentavam como assistente de compras e lavador de carros – para dirigir por 12 horas desde sua casa até as audições. Cabello explicou a Cowell que após ficar aguardando por dois dias para ver os jurados, ela havia acabado de ser avisada que o tempo tinha acabado e ela deveria ir pra casa.

Aparentemente ela era uma reserva”, Cowell me contou ao telefone. “Então eu disse a ela: ‘Escute, eu não tenho ideia do que você está falando ou o que um reserva é, mas já que você está aqui, venha e faça a audição”. Cinco minutos depois, ela cantou [Aretha Franklin – Respect] na frente de 7,000 pessoas e foi sensacional.

Cabello tem uma moldura pequena e uma voz gigantesca e inebriante. O que deixa a desejar em requintes técnicos, ela recupera com paixão jovial e melodrama romântico. Cowell tornou sua carismática descoberta como a (não oficial) líder de um grupo composto por outras 4 concorrentes e o Fifth Harmony nasceu. Após terminar a competição em terceiro lugar, elas assinaram com a gravadora Syco, de Cowell, tornando-se uma espécie de versão feminina de seu outro grupo do X Factor, One Direction. Em meses, Fifth Harmony conquistou um álbum de lançamento de platina com músicas de tema feminista, uma turnê mundial esgotada, duas performances na casa branca e dezenas de milhões de jovens fãs.

Para Cabello, aquele era apenas o início. Ano passado, Havana, o segundo single de seu álbum de estreia que atingiu o primeiro lugar, veio para definir o verão – um feito raro na era da saturação do streaming, onde cada hit é ofuscado pelo seguinte em uma questão de dias. Havana tornou a cantora a primeira artista feminina a ter um bilhão de reproduções com uma única música. Você sendo ou não um fã de Cabello, você já a ouviu.

Nesse verão, a jovem de 22 anos repetiu o impossível. Señorita, uma música romântica latina do seu segundo álbum a ser lançado, com a presença da igualmente estrela pop (e, a partir de julho, namorado) Shawn Mendes, mais uma vez conquistou os charts. Um casal poderoso: de acordo com o Spotify, serviço de reprodução de música online, Mendes, de 21 anos, e Cabello, que ganharam 2 MTV VMAs por Señorita semana passada, são os artistas mais ouvidos no mundo depois de Ed Sheeran. “Havana foi um tipo de sucesso ‘único para toda a vida’ e ela apenas… fez isso mais uma vez.”, diz o empresário de Cabello, Roger Gold, que primeiramente conheceu a cantora enquanto era advogado do grupo Fifth Harmony. “Nunca pensamos que seria algo tão massivo”

Quando eu repito as palavras de Gold de volta para Cabello tomando um leite com cereais em um café vegano em Montreal – a mais recente parada da turnê mundial de Mendes – ela sorri. “Foi o mesmo com Havana”, ela diz, mantendo o olhar na janela para os fãs que estão acampados fora do hotel onde ela e Mendes estão hospedados, desde quando os dois foram vistos andando adoravelmente juntos pela cidade no dia anterior.

“Todos me disseram, essa é uma música latina, não pode nunca ser o single. Pessoas da gravadora e amigo estavam dizendo que eu precisava adicionar mais produção, pois era muito lenta”, continua Cabello, antes de acidentalmente derramar café em seu casaco cinza e sinceramente me implorar por dicas de lavagem. Nós limpamos a manga do casaco dela com água, enquanto Cabello tentava imitar o meu sotaque. “Eu vou pedir um flat white”, ela fala maliciosamente de novo e de novo, até que eu a conduza de volta à conversa. Persuadida de que Havana jamais tocaria nas rádios, Cabello lançou Crying in the Club como o seu primeiro single então. Mas quando o álbum foi lançado, foi Havana que fez os ouvintes se prenderem.

“Era surreal: crianças vinham até mim e perguntavam, ‘você é a Havana?'” ela diz. A música foi indicada em duas categorias do Grammy, onde Cabello se tornou a primeira artista feminina a abrir uma cerimônia.

O domínio de Cabello nas paradas, é parte do que Gold chama de “mudança de terreno“. “Artistas latinos tem ganhado uma enorme aceitação global no mundo pop nos últimos anos,” ele diz. Até 2017, um ‘numero um’ de língua latina era raro, limitado a Enrique Iglesias, Shakira e modas tipo ‘Macarena’. Isso mudou quando Despacito de 2017 de Luis Fonsi e Daddy Yankee, escrita totalmente em espanhol, se tornou a música mais reproduzida da história.

No mesmo ano, o número de músicas de língua espanhola na Billboard Hot 100 pularam de 3 para 19; esse ano o número já está em 16. A influência Latina é tanta na cultura pop que Madame X de Madonna, lançado em Abril teve a estrela cubana Maluma, e a versão moderna do flamenco clássico da revelação espanhola Rosalia esteve no palco John Peel do Glastonbury desse ano. No meio disso, claro, veio a avassaladora Havana.

Cowell diz que ele nunca pensou nas raízes latinas de Cabello quando a conheceu. “E então é claro que eu percebi anos depois, de que ela estava transformando tudo.”. Ele desde então tem tido sucesso com o seu grupo latino CNCO. “Talvez eu deva muita coisa a ela.”

Até mesmo cantores que não são latinos estão lucrando com o gênero, como Justin Bieber provou com seu enormemente popular remix de Despacito. “É definitivamente irritante quando as pessoas se aproveitam, mas as vezes eu sou inspirada por coisas que não são necessariamente da minha cultura.” diz Cabello. “Eu acho que com a globalização, gênero não existe mais. Foi surreal ouvir as pessoas cantando o refrão de Havana. Muitos jovens nunca haviam ouvido falar sobre o lugar.”

Cabello doou os lucros procedentes do vídeo da música para apoiar jovens imigrantes ilegais, conhecidos como Dreamers – que entraram nos EUA menores de idade e estão buscando o status de residentes. Seu canal do Youtube foi inundado com mensagens de fãs latinos a agradecendo por fazê-los se sentirem mais bem recebidos na América. Cabello sofre com ansiedade e procura ficar longe de redes sociais porém quando eu menciono as mensagens ela espalma as duas mãos no rosto e suas sobrancelhas sobem pra trás da sua franja. “É mesmo? Isso me faz tão feliz. Por isso eu quero contar minha história, porque quando eu vejo o que está acontecendo na fronteira, meu coração se quebra. Aquela é minha história também.”

Cabello tinha 6 anos quando sua mãe, uma arquiteta, a carregou através da fronteira do México, dizendo a filha que elas estavam indo a Disney. “Eu tenho essa memória da minha mãe me levando para um posto de gasolina, e só isso,” ela diz. Elas ficaram detidas por 22 horas antes de serem liberadas para seguir para Miami. Seu pai, originalmente da Cidade do México, se juntou a elas ilegalmente anos depois, após nadar o Rio Grande. “Eu não sabia o que estava acontecendo,” Cabello me conta. “Eu apenas tinha meu calendário da Disney que eu riscava os dias até ele chegar.”

“Por isso a minha mãe ama o filme ‘A Vida é Bela'”, ela diz, se referindo ao filme vencedor do Oscar de Roberto Begnini, uma comédia sobre um pai judeu e seu filho levados a um campo de concentração durante o Holocausto. “Obviamente eu não estou comparando a minha história a essa em termos de, você sabe…mas sim a mesma ideia de um pai/mãe inventar um jogo para proteger seus filhos.”

O novo álbum de Cabello, ainda sem nome, que sairá mais tarde ainda esse ano, é um tributo ao primeiro amor. Ela descreve a experiência nos termos do filme Amélia de 2001, que ela assistiu a primeira vez no ano passado. “Antes, eu era Amélie”, ela diz, se comparando a sonhadora principal do filme, encenada por Audrey Tautou. “Eu estava vivendo na minha própria imaginação. Eu não saía e conhecia pessoas. Eu realmente não fazia amigos. São as menores coisas que emocionam a Amelie, como ser paquerada.”

Quando criança, ela odiava tanto atenção que chorava quando lhe cantavam ‘Parabéns pra Você’. Sua audição para X Factor foi a primeira vez que ela cantou em público, e a ajudou a perceber que ela poderia se transformar no palco. “Agora, eu sou a Amélie ao final do filme, quando ela se apaixona pela primeira vez e quebra a sua proteção.”

Das 72 músicas que Cabello escreveu para o álbum, apenas um pequeno número será lançada, e cada uma delas tratará das minúcias dos relacionamentos. Desejando que eu escute algumas, Cabello chama a sua mãe Sinuhe, que viaja com a filha a todos os lugares e chega ao café com um iPhone, onde ela toca duas novas músicas para mim. A primeira é uma balada pesada, gótica, remanescente da Avril Lavigne de antigamente; a outra uma música Latina carregada com um batida poderosa que faz você querer levantar e dançar salsa.

Como no álbum anterior, Cabelo é creditada como compositora em todas as músicas do novo álbum – uma raridade em uma época onde tantos hits são manufaturados por times de compositores e produtores. Será que ela está querendo se posicionar sobre alguma coisa?

“Não, mas eu preciso contar minhas próprias histórias,” ela diz. “Eu ainda me arrependo do meu primeiro single, Crying in the Club, porque eu não o escrevi e eu não senti como se fosse meu. Eu tinha o refrão de Havana, porém eu segui com o que era seguro, com o que as pessoas da indústria me diziam que funcionava antes. E resultou que ninguém sabe o que pode acontecer.”

Quando Cabello usa a palavra “indústria”, sua expressão, geralmente acolhedora e confiante, se torna inquieta. A falta de liberdade que ela experimentou no início da carreira como parte de um grupo de gravadora parece ter criado nela uma desconfiança no sistema.

“Fifth Harmony era como se fosse uma pessoa a parte. Era com se nós estivessemos lá para servir ao grupo”, ela diz, puxando as mangas do seu casaco cinza. Após Cabello deixar o grupo em 2016 ela foi acusada de traição, e as coisas ficaram feias – quando as 4 integrantes remanescentes abriram o MTV Video Music Awards de 2017, em uma plataforma elevada mostrando a silhueta de 5 mulheres ate que uma delas fosse atirada para fora do palco quando a performance começou. “É tão normal grupos de desintegrarem. Eu acho que tem que acontecer algum tipo de milagre para 5 pessoas permanecerem juntas,” ela diz. “Eu sou tão interessada para saber o que acontece de diferente com o Little Mix.”

Em 2020, Cabello vai fazer seu próximo passo na carreira – na atuação. James Corden pessoalmente a escolheu para estrelar a contribuir para criação de um musical com uma nova versão para Cinderela, que ele está produzindo. “Ele viu meu comercial da L’Oreal onde eu estou basicamente sendo idiota, e ele achou aquilo legal.” Ela parece um pouco assustada – e está atualmente tendo aulas de atuação – mas parece ser um próximo capítulo óbvio para uma vida real que está tomando a dimensão de um conto de fadas.

“Quer saber,” Cowell me diz antes de desligar o telefone, “eu nunca imaginaria, lá atras, que quando eu conheci a menina que estava tendo o pior dia da sua vida, que estava chorando na parte de trás da arena, que agora estaríamos tendo esse tipo de conversa sobre ela. Você consegue acreditar?”

O novo single da Camila Cabello sairá na quinta-feira.

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